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Quando devagar combina com bem-estar

Em todo o mundo, movimentos “slow” lembram a importância de diminuir o ritmo para aproveitar a vida.

O tic-tac universal e seus mistérios sempre estiveram presentes no cotidiano dos seres humanos. De olho na natureza e nos relógios, criamos com o tempo uma relação que também se transforma ao longo da história e que parece estar se acelerando cada vez mais em nosso dia-a-dia. A globalização, a imensa competitividade do mundo capitalista, as concentrações urbanas, o excesso de informação e outros fatores presentes em nossa era fazem com que vivamos de forma cada vez mais ágil, realizando um número maior de atividades em um curto período de tempo. Esta rapidez, se já foi vista como sinônimo de maior produtividade e até comemorada, tem ganhado críticos em todo o mundo nas últimas décadas. Afinal, seria o ritmo acelerado realmente o melhor para a nossa saúde e bem-estar?

Preocupados exatamente com estes aspectos, os adeptos dos movimentos "slow" ou "devagar" acreditam piamente que não. Do pensamento à alimentação, cidadãos espalhados por todo o globo pregam que é importante abrandar cada atividade, literalmente saboreando mais os momentos da vida. Fazer as coisas devagar não significa, porém, colocar nelas menos energia ou simplesmente entregar-se à preguiça e ao ócio. Ao contrário: é procurar um contato mais real consigo mesmo, com o próprio ritmo e, aos poucos, trabalhar e se organizar para que este ritmo se desacelere.

Ao repararmos na quantidade de males causados pelo estresse, encontramos um significativo primeiro sinal de que abrandar a rotina pode realmente auxiliar na manutenção da saúde física e mental, diminuindo a ansiedade, permitindo mais prazer em atividades corriqueiras e em nossas relações com o mundo.

Um dos principais expoentes mundiais desse movimento é o Slow Food. Em 1986, a cidade de Roma, na Itália, viu abrir sua primeira loja de comida fast-food, com sabor padronizado e alimentos criados para serem ingeridos bem rapidinho. Foi o suficiente para que Carlo Petrini, da cidade italiana de Bra, no Piemonte, fundasse um movimento com o objetivo principal de manter as tradições à mesa, primando pela qualidade dos alimentos, seu sabor e, principalmente, pelo verdadeiro ritual que compõe o ato de comer e compartilhar o alimento.

Desde então, o movimento Slow Food se espalhou e hoje conta com mais de 80 mil associados em 104 países. Só no Brasil, são aproximadamente 500 associados e sete "Conviviuns", nome dado aos grupos que têm como função desenvolver a educação nutricional, a preservação de alimentos em risco de extinção, a manutenção de tradições culturais à mesa e a troca de informações durante encontros/refeições.

"Não é necessário associar-se a um movimento como o Slow Food para ter uma atitude verdadeiramente devagar à mesa. Basta passar a experimentar alimentos locais, cultivados preferencialmente na sua região, caprichar no preparo e resgatar o valor afetivo da comida desde o preparo até o momento da reunião para a ingestão do alimento", explica Carlyle Vilarinho, responsável pelo "Convivium" do movimento Slow Food de Brasília. Segundo nutricionistas, manter cuidados especiais na hora da refeição, como evitar assuntos estressantes, além de mastigar vagarosamente, auxiliam no melhor aproveitamento dos nutrientes e evitam problemas bastante ligados a emoções à mesa, como as gastrites.

Inspirados pelo movimento Slow Food, os habitantes da cidade de Bra e de algumas aldeias próximas decidiram ir além e em 1999 criaram o que chamam de Città Slow, ou "cidade devagar". Adquirindo uma nova postura no dia-a-dia, estas pessoas transformaram suas cidades em locais bastante agradáveis não apenas para comer devagar, mas também para o convívio diário nas ruas, nos estabelecimentos comerciais e nas empresas locais. O resultado foi a queda do desemprego pelo aumento da visita de turistas atraídos pela possibilidade de sentirem o que é viver de maneira tranqüila, valorizando cada papo demorado, cada paisagem, cada refeição, cada tradição.

Se a viagem para a Itália parece um plano longínquo, lembre-se de que viver de maneira mais devagar, mais "slow" e prazerosa está ao seu alcance agora mesmo. É necessário tomar alguns cuidados, em alguns casos modificar a rotina, repensar hábitos e pesar as conseqüências do ritmo escolhido para si. É bom lembrar, apenas, que bem-estar e saúde também são conquistas e que merecem atenção especial.