Num mundo que cultua imagens de rostos jovens, é difícil fazer as pazes com o próprio relógio biológico.
Elas estão sempre lá, nas páginas das revistas, nas imagens da TV, nos anúncios pelas ruas. São pessoas lindas, magras e estranhamente jovens. Mesmo que tenham mais de 40 anos, não há uma só ruga em suas peles. Tudo parece blindado contra o tempo, com a ajuda de incontáveis cosméticos, dietas e tratamentos estéticos – além do famigerado Photoshop. Diante de tudo isso, é possível aceitar a idéia de que envelhecer é inevitável?
Para o médico homeopata e terapeuta Saulo de Tarso Corrêa Cardoso, fazer as pazes com o próprio relógio biológico não é tarefa fácil. Na opinião dele, a preocupação com o envelhecimento cresce com o nosso ritmo acelerado de vida, repleto de imagens e apelos consumistas. "Os jogos de força dos poderes atuais são a exclusão e a homogeneização de comportamentos ditados pelo mercado", explica. "A sociedade atual transformou o morrer em algo a ser evitado e a idéia de não envelhecer em um ramo da economia".
Não é de hoje que a idéia de envelhecer atormenta a humanidade. A procura pela fonte da juventude é assunto nos mais antigos escritos. A mitologia está repleta de seres imortais e a Bíblia cita com freqüência seres de grande longevidade. Mas hoje, com tantos avanços no campo da medicina, a crença no prolongamento da expectativa de vida tornou-se ainda mais forte.
"O homem contemporâneo, como os antigos, cria mitos para se orientar. Os mitos atuais são de que o conhecimento técnico-científico vai prolongar a vida do corpo e até mesmo produzir pessoas que não morram", afirma Saulo.
Além da ilusão da imortalidade, vivemos numa era de valorização excessiva da imagem. No livro "O que é Pós-Moderno", o comunicólogo Jair Ferreira dos Santos sintetiza, de maneira bem-humorada, essa característica. "Que criança linda", disse a amiga à mãe da garota. – "Isto é porque você não viu a fotografia dela" - respondeu a mãe.
A imagem passou a ter uma importância extrema, um dos pontos que o filósofo francês Gilles Lipovetsky toca em seu livro "A Era do Vazio". Falando sobre o homem contemporâneo, ele aborda o individualismo exagerado e o consumismo voraz que idealiza apenas o que é novo.
Nesse contexto, é possível envelhecer bem? A resposta é sim, de acordo com o livro "Velhice Bem-sucedida. Aspectos Afetivos e Cognitivos", organizado por Anita Liberalesso Neri e Mônica Sanches Yassuda. Pesquisas descritas na publicação mostram que, graças à ativação de recursos pessoais, educacionais, médicos e sociais à disposição de quem chega a uma idade mais avançada, é possível ter mais qualidade de vida.
Do ponto de vista emocional, para Saulo, não há receita para envelhecer bem. O importante, segundo ele, é compreender qual estilo de vida que te agrada e estar próximo a pessoas com quem você compartilha isso. Além disso, ele recomenda cuidados simples como exercícios e boa alimentação.
"Nossa anatomia corporal foi produzida há mais de 15 milhões de anos, criada para andarmos, pelo menos, 15 quilômetros por dia. O corpo que está aí é uma tecnologia que deu certo: precisa ser cuidado."
Serviço:
Saulo de Tarso Corrêa Cardoso - homeopata e terapeuta
Tel: 11 5539-0566.
"A Era do Vazio", Gilles Lipovetsky, Editora Relógio D’Água
"O que é Pós-Moderno", Jair Ferreira dos Santis, Editora Brasiliense
"Velhice Bem-sucedida. Aspectos Afetivos e Cognitivos", de Anita Liberalesso Neri e Mônica Sanches Yassuda (organizadoras), Editora Papirus.










